Por que dizer não a nossos filhos.

 

O medo de dizer não aos nossos filhos, nos dias hedonistas atuais, onde a regra é mostrar-se sempre "bem" e demonstrar ao respeitável público do facebook que se está sempre no gozo dos prazeres da vida, tem contribuído para a deturpação dos valores, para a não aceitação de limites, para o desrespeito dos direitos dos próximos e para a desorganização do tecido social. Hedonismo, aqui usado, no sentido do prazer pelo prazer, do demonstrar-se sempre feliz, independente das circunstâncias.

De acordo com o psiquiatra, José Sebastião: "O caráter molda-se no não. Ele dá a dimensão dos direitos e deveres." Na verdade, a compreensão do "não" constitui a primeira introjeção do conceito de lei, da noção do espaço pessoal - inviolável sem a permissão do outro e dos nossos deveres com relação aos direitos da coletividade.

Se à criança não é ensinado o valor do não, teremos, com muita probabilidade, adolescentes e adultos com desvios e condutas e, como consequência, a violência que hoje é, no Brasil, a maior causa de mortes entre jovens.

A violência é gerada por conflitos em que uma ou mais partes não cedem: não foram educados para aceitar as frustrações e os impedimentos. Não contemporizam, não compreendem e nem aceitam princípios, o que leva a comportamentos sugestivos de psicopatologias das mais variadas magnitudes.

Na adolescência, com o inevitável contato com o mundo fora de casa e com o complexo de super-homem, surgem as consequências da ausência das negativas e, em muitos casos, o uso de drogas lícitas e ilícitas na tentativa de aplacar as dores e os desequilíbrios afetivo-emocionais.

A consequência do uso abusivo dos entorpecentes é o advento frequente de condutas antissociais, as agressões às famílias, os comportamentos esquizóides. Os extremos dessas condutas perversas são o que mais se vê na maior parte do tempo dos nossos telejornais, na forma de matricídios, homicídios, latrocínios e agrassões de toda ordem (isso tem viciado muito a audiência, aproximando-a ou do pânico ou da indiferença ou do sadismo).

Vivemos uma época de trevas onde impera o sim. E caminhamos celeremente para uma época em que teremos muitas saudades de um não bem dito: ene-a-o-til. Dever-se-ia buscar entre tese e antítese uma hipótese que permitisse o sim e o não viverem em harmonia, principalmente na educação das novas gerações.

Resumo do artigo do médico José Carlos Lassi Caldeira publicado no jornal Estado de Minas.